Papo com o OJCT: Entre ciência, arte e humor, Rachel Paterman reflete sobre os desafios da vida acadêmica

Redação OJC&T: Cláudia Marapodi - EPSJV/Fiocruz | 23/06/2026 07:07:00
Pessoa sentada no palco segura um microfone e um livro no colo, iluminada por luzes amarelas, com um livro grande aberto à frente.

Entre pesquisas, salas de aula, orientações e prazos, Rachel Paterman começou a transformar as inquietações da vida universitária em quadrinhos cheios de humor e reflexão. Foi assim que nasceu, em 2018, a @desorientanda, personagem que deu voz a dúvidas, angústias, descobertas e contradições de quem vive o universo acadêmico. O que começou como uma página nas redes sociais, logo se tornou um espaço de identificação para estudantes, pesquisadores e professores de diferentes áreas.

Antropóloga, quadrinista e arteterapeuta, a pesquisadora construiu uma trajetória que atravessa fronteiras entre ciência, arte e saúde. Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente pós-doutoranda na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ela investiga a saúde mental no meio acadêmico, buscando compreender como a criação artística pode abrir caminhos para o autoconhecimento, o cuidado e a reflexão crítica.

Mas Rachel não se limita às pesquisas e às salas de aula. Seus traços já deram origem aos fanzines (pequenas publicações independentes, feitas de forma autoral e artesanal) Desorientanda, publicados em diferentes edições, e ao livro “Úrsula: uma peixinha do sertão carioca”, obra criada em parceria com a antropóloga e roteirista Stella Rodríguez. A pesquisadora também participa de exposições, feiras, oficinas e projetos que aproximam quadrinhos, educação de debates contemporâneoPessoa com cabelos escuros e óculos está em pé diante de uma parede clara e segura uma folha com uma tirinha em quadrinhos. A pessoa aponta para a folha com uma das mãos. A tirinha tem desenhos em preto e branco e inclui o título “DESORIENTADA | por Rachel Paternan” no topo. Nos quadrinhos aparecem personagens com falas curtas em português, incluindo expressões como “blá blá blá” e “glub glub glub”. Ao fundo, na parede, há dois quadros pequenos com ilustrações. A iluminação é suave e natural, e a cena acontece em ambiente interno.s, incluindo questões relacionadas à saúde mental e às mudanças climáticas.

Em seu trabalho, o humor não serve apenas para arrancar risadas. Ele funciona como uma lente para observar o mundo, questionar certezas e tornar mais humanas as experiências vividas dentro e fora do meio acadêmico. E é justamente nesse encontro entre desenho, ciência e sensibilidade que Rachel segue criando histórias capazes de nos fazer pensar — e, muitas vezes, rir de nós mesmos.

Entre pesquisas, desenhos e reflexões sobre a saúde mental, Rachel Paterman construiu um caminho singular que conecta ciência, arte e humor. Mas como nasceu a Desorientanda? O que os quadrinhos podem revelar sobre a vida acadêmica? E como a criação artística pode contribuir para o cuidado de si e para a produção de conhecimento? Na entrevista a seguir, Rachel compartilha experiências, inquietações e aprendizados acumulados ao longo dessa trajetória.

 

Entrevista à Rachel Paterman, a “Desorientanda”


OJCT: Rachel, você é antropóloga, quadrinista e arteterapeuta. Como esses diferentes caminhos se encontraram na sua trajetória e influenciam o seu trabalho atualmente?

Paterman: Foi de uma maneira inusitada e não planejada que esses percursos foram se desenhando na minha trajetória pessoal e profissional. Tenho refletido ultimamente como não se trata de caminhos totalmente diferentes, pois percebo uma grande zona de contato entre eles, que é um desejo muito grande de conhecer e contar histórias. Costumo dizer que quando me doutorei em Antropologia me tornei também quadrinista, pois foi durante o doutorado que entrei em contato com esta linguagem, de uma maneira muito espontânea e relacionada à escrita de diário, e foi assim que se deu também minha entrada no universo da criação e circulação de histórias em quadrinhos. Quando, algum tempo depois, minhas tiras começaram a repercutir, e percebi efeitos de identificação sobre os conteúdos subjetivos que continham, comecei a considerar com maior seriedade uma expansão nas minhas competências profissionais para o mundo das terapias expressivas. Algo que, de longa data, me interessava, mas em que não tivera condições de investir durante os anos da formação acadêmica. Era uma possibilidade que me ocorreu diante da realidade com que precisei me deparar em meus primeiros passos de antropóloga doutora, tendo em vista as cada vez mais raras e disputadas vagas no serviço público. Desde os tempos da graduação meu objetivo era me tornar professora pesquisadora no ensino superior. Não posso deixar de fora deste relato a conjuntura social e política que atravessou esse choque de realidade, com a ascensão de um governo marcadamente obscurantista, desafiando perspectivas de investimentos significativos em áreas de pesquisa e educação. Algo que em mim surtiu um efeito de ceticismo em relação a uma carreira marcadamente acadêmica, que é a da antropologia. Ao mesmo tempo, isso me possibilitou pesquisar e ir atrás de possibilidades alternativas de inserção e aprimoramento laboral, e não deixo de me ver como antropóloga, nem quadrinista, quando hoje atuo como analista e docente em psicologia analítica e arteterapia, muito pelo contrário: acredito que trilhar caminhos distintos favorece a construção de novas perspectivas e permite ampliar e redesenhar mapas de nossa inserção no mundo.

OJCT: ⁠Em que momento você percebeu que os quadrinhos poderiam se tornar uma ferramenta para refletir sobre a vida acadêmica e como nasceu a Desorientanda?

Paterman: Acho que foi a partir das interlocuções que foram se formando ao meu redor ao longo da consolidação da minha página nas redes sociais, concomitante à da minha autopercepção como quadrinista. Mais ou menos no ano de 2019 conheci Melina Vaz, uma recém doutora, que também estava produzindo tiras de humor sobre a vida acadêmica, e mais precisamente sobre o que é ser uma aspirante à carreira em pesquisa em pleno desmonte das universidades públicas. Já escrevemos como nossa amizade aconteceu de maneira imediata, e com ela perspectivas de projetos comuns relacionados a trazer visibilidade, pela via da arte e do humor, aos bastidores da vida de quem trabalha com pesquisa, como uma maneira também legítima de divulgar ciência e contribuir para sua valorização pública. Veio dela o primeiro convite para que eu falasse em uma situação acadêmica sobre meus quadrinhos, foi a primeira “live” na qual participei nos tempos da pandemia. Dali em diante surgiram mais convites e oportunidades para retornar a esse meio de discussão agora com uma outra “identidade”, digamos assim, como a quadrinista que fala sobre dificuldades da vida acadêmica. Esse novo enquadramento me levou a pesquisar mais sobre esse assunto, e assim comecei a desbravar um universo que conhecia pouco, apesar de estar contribuindo ativamente para sua ampliação por meio da minha produção artística. E pesquisar isso, o cotidiano da vida da pesquisa, não era exatamente um desejo quando comecei meus primeiros rabiscos. O desenho foi surgindo como parte da escrita de diário, em meio a anotações que já costumava produzir visando processar internamente emoções da minha rotina de estudo, campo, docência, enfim, as diferentes dimensões vividas por uma doutoranda. Foi nesse contexto que, certo dia, nasceu minha personagem, que hoje apelido carinhosamente Desô. Acho que ela trouxe consigo um componente importante para a conversão daquele registro discursivo, de diário, em algo que pudesse ser compartilhado e tornado público: o senso de humor, dando forma de piada a muitas das situações que eu pretendia elaborar. E assim, facilitando a aproximação e processos de identificação por quem passou a conhecer minha página.

OJCT: ⁠O que mudou na sua forma de ver a academia desde que começou a publicar as tirinhas e receber o retorno dos seguidores? Seus trabalhos exploram as relações entre ciência, arte e saúde. Onde essas áreas se encontram na sua visão?

Paterman: Acho que foi justamente perceber a demanda por discussões sérias a respeito das dificuldades de quem está aspirando à carreira acadêmica. Algo interessante do humor é que ele não necessariamente corresponde a diversão, entretenimento. Humor não é aquilo que apenas te faz rir, pois muitas vezes é aquele riso dúbio, simultaneamente de alegria e tristeza, às vezes raiva também; humor mexe com o que está mais ou menos estável lá dentro, isso às vezes gera sensação de prazer, mas também às vezes gera um desconforto de difícil descrição. Tudo isso, claro, dependendo das circunstâncias da mente de quem o vivencia, sua situação etc. Há referências que lidam com esse assunto, acredito que Henri Bergson (filósofo francês) seja a mais conhecida. Acho muito interessante todo esse ambiente paradoxal do humor, e com a Desorientanda pude viver de perto esse direcionamento ao “sério”, e mesmo ao “grave”, pela via do “engraçado”, “bobo”, “ridículo”. A academia é um ambiente profundamente sério, existe essa imagem de que ela é composta por pessoas inabaláveis e que não cometem erros. Sendo que o erro é fundamental à produção científica, é constitutivo. Essa imagem tem seu caráter de fato social durkheimniano (pensamento do sociólogo francês Émile Durkheim), e também, acredito, do que junguianos (psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Analítica) denominam complexo cultural, pois é algo que vai se reproduzindo muitas vezes sem a menor consciência. Algumas dessas máscaras se quebraram para mim conforme fui conhecendo, por meio do humor, intelectuais, que colocava em um pedestal. Pessoas que foram reagindo à Desorientanda e se aproximando de mim de outra forma. Com tudo isso fui percebendo como o humor pode trazer efeitos de humanização e também de desnaturalização de muitos desses engessamentos, que no final das contas se associam a mecanismos de distinção e de hierarquização profundamente elitistas e desconectados de compromissos de transformação social. Ao levar a Desorientanda de volta à academia, passei a confiar nessa possibilidade de reproduzir esses efeitos também internamente às relações que conformam essa instituição, enfim, trazer para dentro dali os movimentos que vi acontecendo à sua sombra, nos diálogos muitas vezes velados das redes sociais. E é assim que venho ao longo dos últimos anos, por meio de pesquisa de pós-doutorado, lidando com a linguagem dos quadrinhos como meio de aproximação ao universo da saúde mental no meio acadêmico.

OJCT: ⁠As tirinhas da Desorientanda retratam situações que muitos pesquisadores vivenciam. Quais são os principais desafios da vida acadêmica que você destacaria atualmente?

Paterman: Eu destacaria a inserção laboral. Falo sobre isso a partir de minha experiência, pois acredito que minha trajetória não é só minha, ela tem um caráter coletivo, e também por isso meus quadrinhos já foram considerados autoetnográficos. É muito tempo de investimento em pesquisa resultando em desemprego, trabalho precarizado e profundas crises em relação ao próprio lugar na sociedade. Acho que em nenhum lugar se fala que a pessoa que quiser ser cientista vai ficar rica, fazer dinheiro etc; em especial quando falamos das ciências humanas, sabemos que não é muito diferente das artes, é uma carreira muito mais relacionada a contribuir significativamente com um entorno social, a fazer diferença para construir um mundo diferente do que vivemos. Mas isso não significa abrir mão de uma vida minimamente digna. E é basicamente isso o que acontece quando hoje vemos a pouquíssima oferta de vagas para trabalhar com pesquisa, as disputas absurdas por bolsas e as disputas mais absurdas ainda, beirando o ridículo, quando se trata de concurso público. Bom, eu não tenho medo de queimar o filme, pois faço a Desorientanda (risos), mas já desisti de muitas seleções ao perceber a relação de duzentos, trezentos candidatos para uma única vaga. Todos com doutorado e sei lá quantos pós-doutorados. E o que acontece é que essa disputa gera situações que profissionais de quaisquer outros meios reconhecem como absurdas: aspirantes trabalhando gratuitamente para engrandecer seus currículos, que não necessariamente vão garantir acesso a vagas. A roda gira e isso é naturalizado por docentes com cargo permanente, pessoas muito bacanas e todas muito bem intencionadas. Já cansei de ouvir pessoas queridas falando “tenta sim, uma hora você entra”, e também me cansam palestras regadas de “eu já estive aí e hoje cheguei aonde estou” para plateias imensas de estudantes precarizados. Eu recuso trabalho gratuito, falo sobre isso e gero constrangimento. Queria que mais pessoas tivessem essa coragem singela. É preciso haver mais oportunidades, e elas não vão surgir sem demanda, sem mobilização coletiva em torno dessa demanda, é fundamental que estudantes se organizem, e nada disso vai acontecer sem ações para mobilizar a sociedade de forma mais ampla para a importância desse trabalho com pesquisa.

OJCT: Como você avalia o impacto da cultura do produtivismo na saúde mental de estudantes e pesquisadores? Você percebe uma abertura maior da academia para discutir bem-estar e sofrimento psíquico? E como o humor ajuda a enfrentar as pressões e frustrações do cotidiano da pesquisa? Existe algum tema que aparece com frequência nas mensagens dos seus seguidores?

Paterman: Acho que o humor apresenta um potencial peculiar em processos de conscientização por mobilizar emocionalmente. O riso é uma reação que tem muito a ver com o que escapa à elaboração racional, ele impõe essa elaboração e nesse sentido expõe uma lacuna de pensamento. Quando falamos de pesquisadores acho que ainda fica mais crítica a reação a esse convite, para lidar com o que não se espera, com o que não se pode controlar, algo que tem a ver com toda aquela valorização do racional em detrimento do emocional, muito característica do modelo cartesiano que embasa o olhar científico mais convencional. Em comentários sobre minhas tiras, que me chamam atenção, justamente por não serem colocados publicamente, aparecem muitas queixas relacionadas sobretudo a vivências de contradições seja em instituições ou autorias individuais. As mensagens tornam-se espaço de desabafo, em geral com identidades preservadas, e que têm como alvo o que podemos aqui entender amplamente como hipocrisias: por exemplo, referências sobre combate a violências de classe, gênero ou raça, exibindo nas relações interpessoais comportamentos bastante similares aos que denunciam; enfim, pessoas, e aqui incluo tanto docentes quanto discentes, pois a relação entre colegas também se apresenta problemática, que no discurso defendem valores de democratização e inclusão, mas que na prática terminam por reforçar valores excludentes. São constatações dolorosas, muitas vezes, por frequentemente envolver nomes admirados, e relações das quais não se quer abrir mão. Então, conversas sobre assédio acabam fazendo parte, por vezes, dessas trocas de mensagem. Enfim, acaba que o humor se torna um convite para aquelas verdades que muitas destas pessoas fogem de processar no cotidiano. Acho isso!

OJCT: O que os quadrinhos conseguem comunicar que, muitas vezes, um artigo científico não consegue? E como você enxerga o potencial dos quadrinhos para a divulgação científica e para a circulação do conhecimento produzido na academia?

Paterman: Respondendo às duas perguntas, acho que os quadrinhos apresentam uma forte característica de aproximação, sendo capazes de instigar aquela curiosidade que levará uma pessoa a pesquisar produções como artigos científicos. Sinceramente, não acho que quadrinhos substituam artigos, penso que eles podem sim explorar elementos que talvez tenham pouco espaço em artigos científicos, e vice-versa. Tenho uma experiência de produção de uma HQ (história em quadrinhos) com uma amiga antropóloga, Stella Rodríguez, que entendemos como de divulgação científica. No livro, propusemos trazer a imaginação para abordar elementos da pesquisa acadêmica da Stella sobre expansão urbana em territórios da Zona Oeste do Rio de Janeiro. A HQ se chama Úrsula: uma peixinha do Sertão Carioca, e foi elaborada a partir do edital de cultura da lei Paulo Gustavo. Costumamos contar que o livro inteiro surgiu de uma nota de rodapé de um artigo escrito por Stella. A nota continha uma brevíssima menção aos peixes-das-nuvens, um assunto para o qual não haveria espaço em um artigo de Antropologia, e que suscitou sua curiosidade interdisciplinar e imaginação poética. Isso fala muito dos potenciais dos quadrinhos para a divulgação científica, pois eles não apenas acolhem como exigem um olhar interdisciplinar; é preciso conhecer vários assuntos e aproximar linguagens, e além disso permitem aproximações com os mais diferentes públicos. De resto, acho que falei também sobre isso ao contar de minha experiência com os quadrinhos como um meio de dar visibilidade aos bastidores da vida de cientistas, algo capaz de gerar identificação e reconhecimento tanto internamente, quanto externamente ao mundo da pesquisa.  

OJCT: ⁠Ainda existe resistência ao uso de linguagens artísticas na produção científica? Como tem sido sua experiência nesse diálogo entre arte e ciência?

Paterman: Percebo muita abertura, em especial na Fiocruz há uma quantidade expressiva de iniciativas assim intencionadas. No entanto, me parece ainda pouco frequente, em especial junto às áreas mais “duras” da Ciência, um entendimento sobre a arte como uma linguagem incapaz de gerar reflexão por si só, e que contribui para a produção de conhecimento. Digo isso, porque, vez por outra, vejo pesquisadores lidando com uma concepção de arte como um “meio” de transmitir dados produzidos de outra forma, pelos caminhos mais convencionais, conhecidos e legitimados do que significa fazer ciência. Embora, acredite que haja espaço para todo mundo. Sustento certas resistências com relação a essa percepção mais instrumentalizada de arte, talvez porque meu modo de aproximar essas linguagens pressuponha fluxos mais recíprocos e dinâmicos entre criatividade e conhecimento.

OJCT: ⁠Você desenvolve oficinas sobre quadrinhos e Antropologia. O que mais surpreende os participantes quando descobrem essa linguagem como ferramenta de pesquisa?

Paterman: Acho que se surpreendem quando se percebem capazes de usar desta linguagem, ou mesmo do desenho em sentido amplo. São oficinas que dialogam com princípios do desenho etnográfico, pois lidam com potencialidades cognitivas do desenho: desenhar nos leva a observar, como Karina Kuschnir (pesquisadora da UFRJ) costuma enfatizar. É bastante comum, em oficinas de criatividade, que pessoas adultas se constranjam diante da tarefa do desenho, para a qual tendemos a ser desencorajadas nas vias dominantes da relação com o conhecimento. Existe essa ideia de que a escrita se situa em um patamar superior, e há estudos que, por exemplo, discutem que não por acaso o desenho desaparece no decorrer das séries escolares, para aparecer apenas associado à matemática. Mas, ao perceberem que podem fazê-lo, compreendem seus muitos caminhos de exploração, seja na produção de registros, na elaboração de ideias, ou ainda como parte mesmo do trabalho de campo, com a experiência de produzir histórias em conjunto com as pessoas de um lugar. Há trabalhos que vêm lançando mão dos quadrinhos de diversas maneiras.

OJCT: ⁠Em um cenário marcado por excesso de informação e redes sociais, como despertar o interesse de jovens pela ciência? O humor pode ser uma porta de entrada para essa aproximação?

Paterman: Gostaria de falar com mais propriedade teórica sobre esse assunto, o que posso sugerir com base no que vivencio é que o humor tem certamente uma qualidade aproximadora, e que ele bem ou mal está em todos os lugares nas redes sociais. Fake news circulam por terem grande apelo emocional, por serem engraçadas do ponto de vista das pessoas e grupos que não possuem as informações necessárias para desconfiar de tais mensagens e contestá-las. Então, o humor está nos mais variados espaços, é um dispositivo muito forte de atenção e engajamento, e fazer uso dele é, de certa forma, falar mais um idioma que permita conexões significativas.

OJCT: Qual o papel da criação artística nos processos de autocuidado e elaboração emocional? Os quadrinhos da Desorientanda também funcionam como uma forma de autocuidado para você?

Paterman: Acho que já elaborei este ponto ao falar da minha relação com os quadrinhos como parte de diário, como linguagem expressiva relacionada a processos de elaboração e autorregulação emocional. Mas também, como alguém que lida com arteterapia e análise, percebo distinções importantes entre processos expressivos de rabiscos mais espontâneos, e aquela forma mais reconhecível de desenhos de humor, tiras e cartuns, que já envolvem uma certa elaboração e preparação para o olhar e identificação alheios. Situo minhas tiras em algum lugar entre expressão e arte nesse sentido.

OJCT: ⁠Se a Desorientanda pudesse conversar hoje com estudantes de iniciação científica que estão começando sua trajetória na pesquisa, que conselho ou mensagem ela deixaria?

Paterman: A Desorientanda certamente os lembraria de se perceberem enquanto parte de redes relacionais, entendendo orientadores, pesquisadores e mesmo as referências bibliográficas menos como grandes autoridades inacessíveis, e mais como pessoas que podem ajudar a ampliar seus mundos, por terem um pouco mais de experiência e tempo de dedicação; a ver colegas como aliados para buscar e oferecer apoio, e não como concorrentes; e procurar assim perceber como não estão sozinhos em seus processos de investigação e sobretudo escrita. O neoliberalismo está dentro das universidades e institutos de pesquisa a todo momento incutindo ideologias de desempenho individual e removendo o foco sobre a importância das alianças que estabelecemos e das formas de organização que podem ser construídas para melhorar as condições para todos. Tendências de competição e hostilidade diante da escassez de bolsas e oportunidades é algo terrivelmente adoecedor, leva a uma sensação de insegurança constante, que nada tem a ver com uma competitividade saudável a ambientes de pesquisa. É um recado que eu mesma demorei bastante a receber e a entender em minha trajetória na iniciação científica: é preciso muito trabalho, muita luta e ela deve ser coletiva. 

Página de quadrinhos com várias cenas sobre trabalho. Em uma, um robô despeja bebida na boca de uma pessoa enquanto aparece “bla bla”. Em outras, personagens fazem piadas sobre ser chefe de si mesmo, ficar sem fazer nada e esquecer informações. No final, um personagem trabalha no computador com a frase: “Trabalhe com o que você gosta”, seguida da ideia de que isso pode virar um trabalho cansativo.


 

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